domingo, 15 de julho de 2012

Aventuras no lugar que não existe: 15 dias de Julho no verão do Amapá


Episódio 1: A Cidade que Existe

“- Aonde você vai nas férias, Luciana?
- Para o Amapá.
(pausa) – Isso existe?”
(Conversa que se repetiu pelo menos quatro vezes antes de eu partir para o Amapá)

Não me lembro exatamente quando e como Thomas sugeriu pela primeira vez de irmos ao Amapá. Como já aconteceu outras vezes, na verdade, essa seria a primeira parte de uma grand viagem que ele faria, incluindo a passagem pela Guiana Francesa, Suriname, Guiana, Roraima e depois, Manaus, para voltar de avião a Sampa. Como sempre, alguém tem que trabalhar, e eu só poderia fazer parte dos primeiros 15 dias do roteiro – daí, o meu destino escolhido. Como sou curiosa, bastante flexível e gosto de conhecer coisas diferentes (não importa o quê), não hesitei em que o acompanharia mais uma vez nessa viagem mochileira-ecológica-sociológica.

Com a correria de fim de semestre (que na verdade começou logo que o semestre começou...) o consciente nem se deu conta da aproximação da viagem, mas consegui, nos últimos dias, dar uma espiada em guias, depois que um amigo, que gosta de viagens “exóticas” como eu e Thomas, disse ter lido recentemente um suplemento de viagens do “Estadão” exatamente sobre o Amapá. Encontrei-o facilmente na rede. Com ele, minha animação apareceu mais rapidamente. 

O vôo até Macapá foi um pouco estressante, já que tínhamos pouco tempo de escala em Belém e o avião saiu muito atrasado de Guarulhos. Mas sempre esquecemos que a incompetência normalmente é generalizada: se o vôo de Guarulhos atrasou, o de Belém atrasou mais ainda. Chegamos no pequeno hotel de Macapá depois da uma da manhã. Dormi imediatamente e tanto, que nem quis saber de acordar para o café da manhã no dia seguinte. Quando acordei as 10h, Thomas não só tinha tomado café, como já tinha ido ao supermercado e comprado garrafas de água mineral (obsessão dele em todas as viagens, e em casa também...) e ido ao terminal rodoviário para comprar as passagens para o interior. Haja eficiência...

Saímos naquela manhã de domingo já sentindo o calor equatorial. Aliás, um dos poucos fatos sobre o Estado que todos no resto do país parecem saber (além de que José Sarney saiu como seu senador sem nunca ter morado lá...) é que exatamente sobre essa capital passa o Equador. Assim, todo o restante do estado (Macapá fica ao extremo sul) estava no verão em pleno Julho! E não é piada: todos os comerciais lembravam desse fato, tão normal quanto o sol em cima de nossas cabeças...

A primeira impressão foi que Macapá não tinha nada da ideia de cidadezinha pequena ou vilarejo que eu tinha. (Aquilo que eu imaginei, efetivamente vi no interior do estado...) Era sim uma cidade de porte médio, avenidas largas e muitas, muitas, muitas repartições públicas! Essa foi a primeira impressão que tive e que se manteve ao longo de tooooda a viagem, inclusive no interior do Amapá: o estado tem uma quantidade im-pres-sio-nan-te de órgãos públicos principalmente federais, depois estaduais e, em última medida, municipais.

Caminhando em direção ao centro da cidade, dobrando uma esquina e... eis o maravilhoso Rio Amazonas! Pela primeira vez na minha vida, eu o via na minha frente! Como senti-me um pouco “enganada” porque no ano passado quando fui a Belém – achava que iria encontrá-lo e não o encontrei (enganada pela própria absoluta e vergonhosa ignorância...) – minha vontade de conhecê-lo aumentou mais ainda. E eis que agora me aparece... do nada (minha ignorância novamente não havia me preparado para o encontro). É realmente imenso, lindo, sem limites... O maior rio do mundo estava na minha frente! O dia ensolarado tornava o grande rio mais lindo ainda.

Toda cidade que tem alguma grande massa de água tem uma vida efusiva à beira dela. É assim com cidade de praia, com cidade de grandes lagos e, claro, com cidade à beira de grandes rios. (Essa vida à beira da água é sinceramente o que eu mais sinto falta morando em São Paulo.) No Macapá,  não seria diferente (nem as cidades do interior do Amapá): à beira do rio, há uma vida diurna e, principalmente noturna, ma-ra-vi-lho-sa... Durante o dia, a imagem do Amazonas, a brisa que nunca deixa de soprar, o céu sempre azul com nuvens brancas (cúmulos-nimbos, é bom deixar claro!)... À noite, ah... a noite a coisa pega fogo! Como toda cidade com temperaturas muito elevadas, nada funciona durante o meio do dia (das 11h a mais ou menos 16h, 17h), e a vida aflora mesmo a partir das 18h (vi isso acontecer de maneira explícita no interior do Peru). Em Macapá, além dos restaurantes “chiques” de comidas típicas na Av. Beira Rio do lado “de lá” do Forte São José, do lado “de cá” há diversos restaurantes/bares mais populares, quiosques para simplesmente beber cerveja ou água de coco, brinquedinhos para as crianças (incluindo uma piscina de lona onde se pode andar de pedalinho), pistas para patins e quadriciclos onde as famílias se divertem, e uma longa fileira, bem a beira do rio, de carrinhos bem iluminados, todos vendendo... batata frita!!! É, infelizmente a culinária amapaense não foi o forte que encontramos... (apesar de se localizar do lado do Pará, onde se come muito bem). Mas é claro que eu não podia deixar de experimentar as tais das batatas fritas, pelo menos no meu último dia em Macapá (e quando Thomas já não estava mais comigo enchendo o saco do que eu como, é claro...) O sabor não tinha nada de mais... Mas a sensação de estar sentada à beira do Rio Amazonas comendo uma fritas dos famosos carrinhos da Beira-Rio de Macapá... não tem preço!

Na “esquina” do Rio Amazonas (e é engraçado, pois dá a impressão de ser uma esquina do rio mesmo...) está uma das maiores atrações da cidade: o Forte de São José de Macapá. E ele é de fato uma construção bem interessante: pentagonal (seu formato tornou-se símbolo do estado, presente até na bandeira), com dezenas de canhões apontados para o rio, para a cidade e para toda  a região em volta do forte; muito bem planejado, com 8 prédios onde se abrigariam as casas dos oficiais, do padre e do médico, a capela, as moradias dos soldados, lugares para guardar armamentos e comida, etc. Pena que nunca foi de fato utilizado... Os franceses invadiram a região mesmo com a presença do forte... (Mais dados interessantes sobre os 320 anos do Forte, com uma foto bem interessante: http://www.correaneto.com.br/site/noticias/21462)

Pegando-se um ônibus municipal, em menos de meia hora, pode-se chegar à “praia” da Fazendinha (um distrito da capital). Praia é exagero, mas é uma área onde restaurantes se juntam numa rua, e onde foi criada uma área com areia, quiosquezinhos e cabaninhas para as pessoas poderem se divertir aos fins de semana à beira do rio. Mas o que efetivamente gostamos, e o que fez com que nossa ida à Fazendinha valesse a pena, foi sentar-se no último restaurante da rua e comer um peixe recheado com camarão. O peixe é enrolado no formato de uma bola, com os camarões no seu interior, e depois, frito (a foto do Thomas tentando comê-lo é hilária...). O restaurante ficava do lado de uma entrada do Rio Amazonas. E do lado de lá, havia aquelas casinhas tipicamente ribeirinhas da região Amazônica. O melhor do almoço foi comer o peixe olhando para as pessoas que chegavam e saíam de canoas. Não sei se foi apenas impressão minha, mas elas pareciam tão serenas, tão tranqüilas, remando suas canoas debaixo do sol, naquela raminho do Rio Amazonas.... Bem perto da gente, alguns meninos nadavam, brincavam e riam na água que parecia quentinha... Depois, pegaram também um barquinho e foram remando para suas casas, alegres, com uma preguiça tipicamente tropical...

Próximos episódios:
2) Paraísos Perdidos
3) Dias na BR 156
4) Nossos vizinhos, os franceses

domingo, 28 de junho de 2009

Na terra do liberalismo (2)


Agora posso dizer que uma das minhas maiores missões em San Francisco está concluída: fui assistir hoje (28 de Junho) ao desfile da parada GLTS (Gay, Lésbicas, Transexuais e Simpatizantes), a que deu origem a todos os outros do mundo. Durante o mês de Junho inteiro, a Market Street – uma das principais da cidade, chamada de “a espinha dorsal de San Francisco” – ostentou em todos os seus bonitos postes de luz, ao longo de suas mais de 3 milhas (~ 5km) de extensão, grandes bandeiras do arco-íris. E não importa se a rua passa no meio do centro financeiro da cidade: aqui, até os executivos têm cara relaxada, convivendo pacificamente, ou até mesmo encarnando o liberalismo em todos os sentidos.

Depois de 5 meses indo para San Francisco quase todos os finais de semana, eu nunca vi aquela cidade tão cheia, o metrô (BART) tão lotado, pessoas rindo, cantando e dançando tanto, e tantas mulheres nuas ou seminuas. Não entendi direito a ligação deste último fato com a parada gay, mas parece que o espaço conquistado por um grupo para clamar por seus direitos, é tranquilamente compartilhado com outros. Hoje, não somente os GLTS comemoravam seus direitos conquistados (não completamente ainda), mas vários outros aproveitaram também para exigir os seus: direitos de “voz” para as mulheres, movimento pacifista dos soldados que foram ao Iraque, apoiadores de um Estado Palestino (que teve até “bloco” no desfile), etc.





O desfile teve seus momentos escandalosos, como se podia esperar, até mesmo por parte do público. Afinal de contas, não é só um desfile, é todo o clima do ambiente em volta, a forma como as pessoas de fato vivem.




(Com vocês, a rainha gay latina!)




No entanto, mais para o fim do desfile, podia-se perceber que nem tudo é só festa. Os últimos blocos eram de associações de advogados, empregados e empregadores a favor do direito dos homossexuais; policiais e bombeiros da cidade em seus belos uniformes (entusiasticamente aplaudidos pela platéia, num ato que me emocionou profundamente); empresas que orgulham-se por empregar funcionários gays (NADA nos EUA deixa de ter conotação comercial, mas como eu já me manifestei antes, tudo bem!); e, finalmente – e eu como brasileira fiquei impressionada – movimentos religiosos simpatizantes. Famílias católicas (!), representantes de igrejas “crentes”, e até mesmo padres anglicanos, seguidos de uma trupe de fiéis de suas respectivas paróquias. Nome e sobrenome dos padres podiam ser lidos nas faixas penduradas em seus carros.




(Reparem na bandeirinha brasileira na camisa do jovenzinho!!!)


(Os padres também foram particularmente bem aplaudidos pelo povo.)

E finalmente, quase ao fim do desfile, isso:

("I support gay marriage")


("God is Love")
Só para se ter uma noção, o desfile percorreu 2 km, debaixo de um sol escaldante no auge do verão californiano. Dada a grande quantidade de blocos, cada um deles teve que ir numa velocidade considerável. EU tive dificuldade de andar tudo sem parar algumas vezes debaixo de uma sombra fresca. Quem me diz agora que o que estas duas senhoras (principalmente a segunda) quiseram manifestar não é algo sério?

Duas semanas atrás, fui para o outro ícone do liberalismo San Franciscano: o bairro dos hippies, Haight-Ashbury.


Dizem que no auge do movimento hippie, mais precisamente durante o verão do ano de 1967 – o “Verão do Amor” – mais de 75 mil pessoas acomodaram-se no bairro para participar da “revolução”. Agora, apesar do movimento resumir-se a velhos com longos cabelos, tatuagens e rastafáris vendendo lembrancinhas em suas barraquinhas, há dois festivais anuais que já ocorrem há algumas décadas: a feira de rua, em Junho (a que eu fui), e algo como o “Festival do Amor”, em Outubro (não vi referências no guia, apenas dei uma de enxerida e fiquei ouvindo a conversa de pessoas dentro do café de H-A).
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(Cartaz oficial do Festival de Rua deste ano, juntamente com cartazes dos outros anos.)



(O clima de "Paz e Amor" reina em todo o bairro de Haight-Ashbury". Este é um típico café.)


Poucas semanas depois de chegar na Bay Area, comecei a reparar na enorme quantidade de um certo carro da Toyota nas ruas. Sua freqüência é como o “Palio” no Brasil, mas sua beleza equipara-se a um pequeno Xsara, com um traseiro de carro esporte. Jurei a mim mesma que, caso chegasse ao Brasil, mesmo que custe 3 vezes mais caro do que o quanto custaria aqui, eu teria meu “Prius” (principalmente o vermelho!). Não pude deixar de comentar com Ben, meu cunhado, quando ele e minha irmã vieram visitar a família dele aqui em Oakland. “-Ah! É um carro super econômico, bastante eco-friendly. A Toyota já tem uma lista de mais de um ano de espera!” É óbvio. É óbvio que tinha alguma conotação política/ideológica por trás do enorme gosto popular pelo carrinho. Na mesma semana vi uma reportagem na “The Economist”, sobre um suposto movimento emancipacionista na Califórnia. “A Califórnia do litoral central é completamente incompatível com a Califórnia do resto do estado, principalmente do interior. É a ‘Califórnia do Prius’ versus a ‘Califórnia dos SUVs’ (monstruosas caminhonetes movidas a diesel)”, dizia a reportagem. E até mostrava um mapa com o estado dividido entre ultra-liberais e ultra-conservadores. Para os que pouco conhecem a geografia (e a política) da região, o litoral referido vai do sul de Los Angeles ao norte de Berkeley. É aqui onde se encontram Hollywood, as praias, Berkeley, San Francisco, onde os brancos já são minoria e onde existem três idiomas oficiais: inglês, espanhol e chinês. O liberalismo aqui não é só sexual (com em SF), não é só político (como em Berkeley), mas é também cultural. Aqui, quando você fala que é do Brasil, as pessoas dizem: “- Puxa, que coisa boa a bossa nova brasileira!” (é claro que eu não ouso dizer para eles que antes de vir para cá, foram poucas as vezes em que parei para ouvir uma bossa nova...) Já o interior é a região das grandes fazendas, dos conservadores que elegeram os diversos governadores republicanos, e foram capazes de reverter a legalidade do casamento gay no estado. Mas eles também reclamam (e por isso a Economist acredita que pode haver um racha no estado). Foram os liberais do litoral, protestam eles, que aprovaram a lei que proíbe a criação de vacas confinadas (no estado onde o preço da terra é um dos mais altos do país). Um entrevistado da Economist esbravejou: “- E esses indivíduos sequer viram uma vaca em toda a sua vida!”; algo que eu não duvido nem um pouco.

Mas talvez, esse seja o preço da bela democracia: abrigar debaixo de um mesmo céu pessoas com idéias tão diferentes, que vêem o mundo e as outras pessoas de formas tão diferentes. Na Califórnia, a briga entre fazendeiros e eco-liberais é apenas uma delas. Hoje, em pleno fim-de-semana da “SF Pride”, numa festa ansiada longamente e planejada cuidadosamente (comprovada pelas 95 páginas de seu website), havia uma (pequena) manifestação na esquina mais movimentada de toda a San Francisco (Market com Powell). Quando eu vi, não pude deixar de rir muito...





Tal é a democracia! Viva o mundo livre!