Para mim, o Palace of Fine Arts não tem nada de triste. É uma coisa maravilhosa, num lugar maravilhoso, e, apesar das figuras femininas debruçadas chorando, isso é apenas um lembrete para a importância da arte, que os californianos não se esqueceram nem um pouco.
Não vou falar hoje sobre os museus de San Francisco que, como os de qualquer grande cidade americana (e não só Nova Iorque...), seriam uma comparação covarde aos nossos pobres MASPs.
Vou falar hoje sobre os dois fins de semana de “Open Studio” de Berkeley e Oakland. O que são os open studios? Como o próprio nome indica, os artistas da região abrem as portas de seus estúdios – ou ateliês – para mostrar seus mais belos trabalhos ao público e, claro, aproveitam para vender. O público especializado já freqüenta estes estúdios ao longo do ano, mas o público leigo não. E, como tudo neste país, a organização é extrema. Nas semanas anteriores há forte divulgação do evento nos canais de comunicação. Há uma revista que é impressa aos milhões (eu devo ter visto mais de 1000 exemplares espalhados pela cidade), e dentro dela há a apresentação de cada artista, o seu tipo de arte, e seis mapas destas duas minúsculas cidades indicando o local exato de cada estúdio. Isso não seria nada se houvesse uma meia dúzia de artistas. Bem, Berkeley e Oakland, as duas mais importantes cidades da East Bay, devem ter juntas por volta de 500 mil habitantes. E quantos artistas participaram do evento? Nada menos do que QUATROCENTOS E VINTE!!! (Será que conseguiríamos juntar quatrocentos e vinte artistas para expor seus trabalhos em toda a cidade de São Paulo?)
Quatrocentos e vinte aristas apresentando trabalhos em fotografia, artes plásticas, esculturas, cerâmica, vidro, jóias, etc. – e, dentro de cada categoria, as mais inimagináveis variações possíveis (inimaginável principalmente para nós, de um país sem tradição artística). Em artes plásticas, estão incluídas tanto a artista de telas “clássicas”que acabou de se mudar para cá de Chicago, quanto a amiga da Trish que faz arte, ou melhor Arte (e que Arte!) em quadrinhos. Seus trabalhos incluem desenhos cômicos da vida de uma artista, e também dramáticos quadrinhos em preto e branco sobre a fuga de 5 judeus da Alemanha nazista (nome e sobrenome verídicos dos personagens inclusos). Ainda em artes plásticas, há ainda o que eu chamo de “arte doméstica”. Trish adorou os lenços de seda pintados com águas vivas. Deste estúdio eu preferi os mesmos lenços, mas com variações abstratas em verde e azul. Tem ainda o artista descendente de mexicanos, que faz desenhos com uma técnica que eu absolutamente desconheço (e eu leio sobre arte!), mas que me pareceu usar nanquim e tintas coloridas. Suas gravuras são de traços finíssimos, coloridos com sombras escuras, numa combinação de virgens marias e dragões que remetem a alguma curiosa cultura exótica. Olhando a criatividade, o trabalho meticuloso dele, eu cheguei a uma conclusão: Eu sempre detestei arte contemporânea, achando-a uma desculpa para os “artistas” serem preguiçosos ao ponto de pintarem uma tela inteira com tinta de uma cor só, e chamá-la de “Sem Título”. A grande verdade é que, não é a Arte Contemporânea que é ruim. Ruins são todos os “artistas” que conheci até hoje. Certamente o que Pete Villaseñor faz é Arte Contemporânea, e certamente é lindo.
As manifestações de criatividade não param por aí. Um dos ateliês era de um senhor de meia-idade, que durante a semana certamente trabalha num banco ou num escritório de advocacia. Todos os seus trabalhos eram baseados em livros: estantes construídas a partir de livros, prateleiras construídas a partir de livros (para que livros de verdade fiquem empilhados em cima de falsos livros), mesas, sofás, etc. No chão do estúdio havia uma ratoeira de verdade e ... um “mouse” – de computador – preso nela. Que impulso de criatividade!!! Ainda ali, aqueles quadros de madeira com gancho para se prender chaves. Mas os dele eram todos combinados com títulos de livros conhecidos. Um deles era algo como “O Misterioso Sumiço das Coisas”. Quase comprei para minha irmã que vive perdendo suas chaves.
Foi neste fim de semana que descobri meu amor por cerâmica. Quando falamos em cerâmica no Brasil, pensamos em objetos de barro, primitivas, rudimentares (tem gente que também gosta deste tipo de cerâmica, o que eu respeito). Nada disso aqui. Objetos funcionais e belíssimos, coloridos, brilhantes, com formatos não descritíveis por palavras. Como é possível usar um prato em cujo centro encontra-se uma figura abstrata, numa combinação perfeita de cores e com bordas meticulosamente furadas? E tigelas, e canecos, e saleiros .... todos em cores lindíssimas (verde e preto, vermelho e preto, amarelo e laranja, azuis, degradês em todas as tonalidades, etc, etc, etc). E claro, os bules (há artistas que SOMENTE produzem bules). Mas são nos vasos e jarros que os artistas sentem-se mais livres para expressar seus sentimentos.
Finalmente, meu segundo amor, joalheria artística. Artistas que conseguem emaranhar, de forma bela, fios de prata e de ouro, combinando com pedras de cores raramente vistas. Pingentes que parecem finíssimos tecidos de ouro, com figuras também de ouro incrustadas por cima. Peças de nenhuma Vivara chega aos pés daquilo que vi. E a fantástica artista que perguntou: “- Por que o brinco de um par tem que ser idêntico ao outro?” Com o inteligente (e criativo) emprego da geometria, das formas das pedras e das cores, ela foi capaz de criar brincos absolutamente únicos – de um lado e do outro – mas que ninguém teria a menor dificuldade em encontrar seu par. Aquilo foi uma prova importante para mim de como vivemos numa sociedade de convenções que não fazem sentido.
Obviamente não visitamos todos os quatrocentos e vinte estúdios. Nem mesmo 10% deles. Mas já foi o suficiente para eu querer desesperadamente ser rica e poder comprar todos os objetos de arte que acho belos. (Só não comprei as cerâmicas pois não sei como levar na mala de volta para o Brasil). Os mais céticos diriam: “Ah, mas este tipo de evento é criado para fins comerciais!” É lógico que é! E quer saber? Eu não estou nem aí! E quem me dera se no Brasil houvesse mais mentes para ajudar os artistas a pensar e organizar Arte para fins comerciais! Aí, os artistas de verdade poderiam se sentir absolutamente livres de pressão, de preocupação, e de medos. Só assim, a Arte flui, e só assim é que é possível alcançar os limites da possibilidade criativa. Aí a criatividade (que o brasileiro adora dizer que tem de sobra) poderia se manifestar para fins puramente estéticos. Porque a Vida PRECISA de Beleza. E uma Vida sem Arte é absolutamente melancólica, como bem nos lembram as figuras do Palace of Fine Arts.