segunda-feira, 9 de março de 2009

Americanos, por eles mesmos

(Este texto é dedicado àqueles que um dia pensam em passar um tempo nos EUA, ou lugar parecido... Espero que ajude!)

Todos os indivíduos quando vão parar em terras estrangeiras – para morar ou ficar um longo tempo – não demoram para chegar a conclusões sobre “como é o povo local”. Estas logo se tornam assunto favorito de conversas de rodinhas quando se juntam dois ou mais indivíduos da mesma nacionalidade. Como já discutimos sobre Lévy Strauss aqui neste blog, dá para adivinhar que tais conclusões são normalmente negativas: chineses no Brasil falam mal dos brasileiros; brasileiros na América falam dos americanos; americanos na Europa falam mal dos europeus... Não tem como escapar. Este comportamento, aparentemente arrogante e petulante, é na verdade uma tentativa (malsucedida) de tentar compreender a cultura local, de tirar regras de comportamento dos nativos para saber comportar-se de forma adequada e ser aceito. O que no fundo todos querem é ser felizes – temporariamente ou para sempre – nas terras estrangeiras. Mas, como as conclusões tiradas nem sempre correspondem à realidade – na maioria das vezes são apenas estereótipos longe de serem generalizáveis – o resultado final pode ser de mais sofrimento.

Por isso, é de extremo valor quando podemos nos deparar com descrições sobre o ser e o agir de um povo descritos por seus genuínos representantes. A parcialidade e o viés não estão de todo anulados, mas certamente a visão é muito mais acurada, ampla, sem contar que, por motivos sociológicos que não merecem ser aprofundados aqui, pessoas que se dispõem a escrever tratados sobre o seu povo, normalmente têm uma capacidade de análise e crítica mais privilegiados. Por isso, mal posso descrever minha felicidade quando o pessoal do International Office da universidade, durante o encontro de boas-vindas, entregou-nos um conjunto de “manuais” (de sobrevivência nos EUA...) onde encontrava-se também a lista abaixo. Como eu teria sido mais feliz se tivesse lido isso BEM antes! Espero que agora muitos de vocês possam fazer bom uso dela. Mas atenção: quem vai para Disneylândia ou fazer compras na 5a Avenida em Nova York NÃO precisa desta lista!!!

Os Valores com os quais os Americanos Vivem
1. Controle pessoal sobre o Ambiente: as pessoas podem e devem controlar a natureza, seu meio-ambiente e seu destino. O futuro não é determinado pelo destino.
Resultados: Uma sociedade energética, orientado por metas e objetivos claros.
2. Mudança e Mobilidade: mudanças são vistas como positivas, boas, significam progresso, desenvolvimento e crescimento.
Resultados: Sociedade em constante movimento geográfico, econômico e social.
3. O Tempo e seu Controle: o tempo é precioso, o alcance de objetivos depende no uso produtivo do tempo.
Resultados: Eficiência e progresso muitas vezes às custas de relações pessoais.
4. Igualdade: as pessoas têm oportunidades iguais, e são importantes como indivíduos, pelo o que elas são, não da família das quais elas vêm.
Resultados: Pouca hierarquia ou reconhecimento de status.
5. Individualidade, Independência e Privacidade: as pessoas são vistas como indivíduos separados (não membros de grupos) com necessidades individuais. As pessoas precisam de tempo para ficarem sozinhas e serem elas mesmas.
Resultados: Americanos vistos como egocêntricos e algumas vezes isolados e sozinhos.
6. Auto-Ajuda: os americanos têm orgulho de suas conquistas pessoais, não no nome.
Resultados: Respeito conferido a conquistas e não “acidentes de nascimento”.
7. Competição e Livre Empreendedorismo: os americanos acreditam que a competição traz o melhor das pessoas e o livre empreendedorismo produz o máximo de progresso e sucesso.
Resultados: Menor ênfase na cooperação e mais ênfase na competição.
8. Ação e Orientação ao Trabalho: os americanos acreditam que trabalho é moralmente correto, e que é imoral gastar tempo.
Resultados: Mais ênfase em “fazer” do que em “ser”. Atitude pragmática, com sentido claro com relação à vida.
9. Informalidade: os americanos acreditam que a formalidade expressa arrogância e superioridade.
Resultado: Atitudes casuais, igualitárias entre as pessoas e em suas relações.
10. Honestidade, Abertura e “Directness”: só se pode confiar em pessoas que “olham em seus olhos” e “dizem as coisas como elas são”. A verdade é função da realidade não das circunstâncias.
Resultados: As pessoas tendem a dizer a verdade e não se preocupar em “guardar a cara” ou a honra da outra pessoa.

(Adaptado de “The Values Americans Live By” de Robert Kohls)

Acho que eu não tenho me equivocado muito nas análises deste blog, não é mesmo? ☺

domingo, 1 de março de 2009

Professores americanos, por uma professora brasileira



O primeiro a gente nunca esquece... Primeiro seminário acadêmico em terras norte-americanas, poucas semanas depois de chegar. O apresentador era um aluno brasileiro, quase concluindo seu PhD em Economia na Universidade de Wisconsin. Certamente depois de vários anos de sofrimento, ele finalmente via seu “filho” nascido. Certamente também tinha ido à apresentação com muito orgulho e muita vontade de mostrar a todos a criança. Entretanto, os professores na platéia quase não o deixaram falar, de tantos comentários, perguntas, opiniões sobre o tema que tinham. Um deles em particular, estava muito exaltado: não parava de fazer comentários e críticas de forma que para mim soaram agressivas (meu primeiro seminário...) Lembro-me de nosso brasileiro, segurando a latinha de Diet Coke, andando de lá pra cá, de cá pra lá, de forma que, naquela época, parecia-me nervosa. Ao fim, quando ele tinha terminado sua exposição, aquele professor continuou com os comentários e perguntou num tom alto e firme: “-Afinal de contas, para que serviu o seu trabalho? Porque você não conseguiu fazer o que você disse que iria fazer no começo!” Eu, que estava no fundo da sala, sem ninguém me olhando, sem ter nada a ver com a estória, depois de ouvir isso quis esconder por baixo da mesa, por baixo da terra, sumir do planeta!!! Com todo o mal-estar que EU senti, não me lembro de o que o coitado respondeu.Terminado o seminário, e também o meu sufoco, surprise, suprise! O professor algoz e ele saíram juntos, rindo, para irem tomar um café!!! Esta cena foi uma das melhores coisas que eu vi, principalmente por ter sido nas primeiras semanas de vida acadêmica nos EUA. Ela me ensinou uma lição importantíssima: os americanos, especialmente acadêmicos, NÃO LEVAM PARA O LADO PESSOAL! Ter isso claro em mente foi e é muito importante para qualquer pessoa que queira enfrentar a academia norte-americana. E caramba, que inveja!
Mais de 10 anos depois, em Berkeley, hoje eu não mais me impressiono com as críticas “agressivas” dos acadêmicos. Pergunte a qualquer um deles e eles te dirão conscientemente que este é o papel dos acadêmicos: criticar. Isso faz parte do jogo, e é o que faz as coisas andarem, e é o que faz os EUA continuarem a ser o maior centro de produção de conhecimento humano do mundo. E não é nada pessoal!!! Mas eu ainda me impressiono com o envolvimento dos acadêmicos daqui. Em qualquer seminário a orla de professores é imensa. Não é raro ver 10, 15 professores num seminário semanal e você, apresentador, pode ter a certeza que os 15 hão de querer falar – todos eles – sendo que alguns vão querer falar mais do que você! Já fui a um seminário em que a proporção de tempo falado pela apresentadora e pela platéia foi de 1:2, ou seja, a cada 30 segundos que a mulher falava, a platéia falava 1 minuto. No fim, ela claramente não tinha terminado e perguntou qual era a regra, dado que o tempo tinha acabado. O coordenador disse: “A regra é que o tempo acabou!” Ou seja, prepare bem seu tempo!

O primeiro a gente nunca esquece... Primeiro encontro com meu “orientador” daqui de Berkeley, o famoso especialista em Law and Economics, autor do livro-texto que uso com meus alunos há 5 anos. Cheguei mais cedo ao office-hour e já havia uma moça esperando. Ele chegou logo depois, a moça – super simpática – falou para eu ir primeiro porque a reunião dela iria demorar. O Prof. Cooter cumprimentou-me, abriu a sala fazendo uma cara de “quem é essa?”, convidou-me para sentar, fez o mesmo e... colocou os pés em cima de sua mesa!!! Surpreendi-me ao ver um professor de 65 anos de idade fazendo isso! Fui recuperando-me do enorme choque aos poucos e lembrei-me de que sim, a informalidade, o comportamento despojado não significa desrespeito. Aliás, eu já tinha visto meu orientador de mestrado – mais velho que o Prof. Cooter – fazer o mesmo em sua sala. Nós brasileiros esquecemos muitas vezes de jogar fora a necessidade de poses, formalidades e hierarquia. Eu particularmente tenho uma dificuldade maior ainda com relação a isso, talvez por causa da minha herança chinesa.

Quem chega a qualquer universidade americana, logo se sentirá um verdadeiro cidadão do mundo. Fazendo uma retrospectiva dos 4 anos, 2 mestrados e muuuuuuitas aulas que tive em Madison, posso lembrar meus professores das seguintes nacionalidades: americana (claro), inglesa, francesa, neozelandesa/australiana, chinesa, japonesa, coreana, argentina, canadense e indiana (acho que não esqueci ninguém...) Aprender inglês aqui não é somente aprender inglês americano. Você ainda leva de graça, no pacote, o aprendizado de inglês com sotaque chinês, inglês com sotaque indiano, inglês com sotaque castelhano... Depois de algum tempo você passa para o segundo estágio e se torna habilitado(a) a fazer imitações dos diversos tipos (nada mais engraçado do que uma brasileira com cara de chinesa imitando um indiano falando inglês...). Se prestar atenção pelos corredores, nos seminários, será possível identificar (e aprender) mais outros: brasileiros, alemães, ucranianos, italianos, gregos, suecos... Quando será que as universidades de nossa amada Pátria conseguirão atrair 10%, 5% das melhores mentes de todo o mundo que ainda vem para cá aos montes? E caramba, que inveja!

PS: O segundo encontro com o Prof. Cooter foi sem sustos. Ele até me convidou para tomar um chá!