segunda-feira, 22 de junho de 2009

Na terra do liberalismo (1)

Na terra governada por Conan, o Bárbaro, ou o Exterminador do Futuro, ou o Tira que foi para o Jardim de Infância, o mínimo que se podia imaginar era que política fosse uma grande ficção ou comédia por aqui. Muito pelo contrário. Se a Califórnia não for o lugar de maior ativismo político nos EUA (e eu duvido que não seja), certamente ela é o de maior ativismo político liberal. E não há a menor sombra de dúvida que UC Berkeley tenha o corpo estudantil mais politicamente ativo do país.

Tudo começou em 10 de Setembro de 1965. Num drama que durou quase 120 dias, os estudantes da graduação, incitados por uma carta anônima, iniciaram um movimento e uma longa e conturbada batalha contra a reitoria, reivindicando o direito à livre manifestação de idéias e ao direito de organização (uma típica universidade norte-americana chega a ter mais de 100 organizações estudantis, de cunho político, religioso, étnico, cultural, profissional, de orientação sexual, etc.). O movimento ficou conhecido como “Free Speech Movement”. Sua importância pode ser atestada não somente pela homenagem no nome do café da Biblioteca mais freqüentada do campus, mas também pela doação feita por um ex-funcionário, no valor de $3,5 milhões de dólares, usados especificamente para resgatar a memória e os documentos referentes àqueles históricos 4 meses (a criação do café também foi fruto de parte da doação milionária).

Depois veio a década de 1970 e a inesquecível (em todos os sentidos) Guerra do Vietnã. Lembro-me de um dos melhores professores que tive em Wisconsin, que fez PhD aqui em Berkeley naquela época. Em uma de suas aulas ele contou, com brilho nos olhos, como foram aqueles dias de protestos estudantis. Hoje, caminhando pela passarela na frente da Sather Gate, vendo os alunos conversando animadamente, consigo imaginar-me voltando no tempo e presenciando os estudantes de cabelo comprido, cara meio hippie-meio intelectual (tipo John Lennon), usando as camisetas tingidas de tinta colorida e clamando contra a guerra.

Muitos céticos reclamam que os bons tempos já se foram. “Não se fazem mais alunos conscientizados como antigamente”, dizem os saudosistas ranzinzas. Pois eu não concordo. Em menos de 4 meses, além de presenciar a rotina dos membros das associações estudantis que, incansavelmente, todos os dias, montavam suas mesinhas na passarela à frente da Sather Gate para divulgar suas atividades e atrair novos membros (fazendo bom uso do direito conquistado a duras penas por seus velhos colegas do Free Speech Movement), presenciei pelo menos uma manifestação por semana para chamar atenção de assuntos diversos: lembrança do massacre dos armênios na Turquia, protesto demandando um novo Estado Palestino, protesto contra as tropas americanas no Iraque, protesto a favor das mulheres israelenses, etc. Tudo é possível e tudo é respeitado num exercício admirável de democracia.

(Estudantes lembrando o massacre dos armênios na Turquia no começo do século 20).


(Dias depois, no mesmo lugar, haveria uma manifestação a favor dos palestinos...)

Obviamente, Berkeley reflete o liberalismo extremado da Califórnia litorânea (sobre o qual falarei no próximo texto) e tem seu viés absolutamente liberal. Entende-se por liberal, toda ideologia a favor dos fracos e oprimidos, e você pode definir “fracos” e “oprimidos” como preferir: os massacrados pela super-potência mundial ou regional, os homossexuais que são perseguidos pela grande maioria homofóbica, ou os animais indefesos que são maltratados pelos seres humanos cruéis. No começo do ano letivo de 2008/9 (em Setembro do ano passado), a universidade criou uma campanha para comemorar os 140 anos de fundação. Para isso, montou um enorme painel com bonitas fotos de alunos e funcionários, cada um expressando uma frase de gratidão para a universidade. Dias depois, passando por ele, reparei em algo estranho numa das fotos. A mensagem não parecia ser do aluno fotografado:

(Passando novamente por lá algum tempo depois, a mensagem-protesto tinha sumido. Uma grossa camada de tinta branca podia ser vista no lugar. Faltava apenas algumas semanas para a época de formaturas e visitação das famílias ao campus...)

Fiquei sabendo – e vi fotos – que no dia em que ficou confirmada a eleição de Barack Obama como o novo presidente dos EUA houve uma mega-festa, que entrou madrugada adentro, na famosa passarela da Sather Gate e que se estendeu à Telegraph Avenue (mais importante avenida comercial nos arredores do campus). Sabe o Brasil quando vence a Copa do Mundo? Pois é, igualzinho. (Ou seja, a utilidade de um novo presidente para os alunos americanos de Berkeley = a utilidade de uma taça para os cidadãos brasileiros).

Mas o espírito rebelde não fica limitado aos limites geográficos do campus. Outro incidente ocorreu nos fins da década de 1960 quando a prefeitura expulsou um grupo de hippies e “desocupados” ao derrubar o prédio que os abrigava, com a justificativa de que seria terreno da universidade. Percebendo-se a mentira pública, os protestos começaram e contaram com outros simpatizantes. O fim foi trágico, com a morte de um manifestante e a cegueira de outro, causados pela polícia local, apoiada pelo governador da época, o republicano Ronald Reagan. Hoje, no local da batalha ergue-se um parque chamado “The People’s Park” em homenagem aquele mês em que o povo uniu-se contra a força e violência do Estado. Fui para lá num ensolarado domingo e o parque estava repleto de velhos hippies (e indisfarçável cheiro de maconha). No simples palco montado, um velho de cabelos compridos discursava contra a exploração desumana dos empregadores contra seus empregados que não têm alternativas de melhores empregos.


Os berkeleyanos têm muito orgulho deste espírito rebelde e liberal, e deixam explícito para qualquer pessoa que entra na cidade. A divisa entre Oakland e Berkeley não é marcada, como acontece em qualquer cidade normal nos EUA, por uma placa do tipo “Cidade de Berkeley, População: XXX mil”. O que se vê quando se cruza a fronteira é isso:


Eu não sei ao certo quem colocou a placa ali, e no começo fiquei me perguntando se eu não estava deixando de entender algo mais “complexo” por trás desta simples mensagem (Nuclear Free Zone). Mas depois ouvi gente mais conservadora tirando sarro da placa. Ela quer dizer exatamente o que se lê...

Semana que vem atravessaremos a baía para conhecer o espírito liberal de San Francisco, mais conhecido e mais escandaloso...

quarta-feira, 17 de junho de 2009

Como se pode viver uma vida sem arte?

Passei o aniversário deste ano fazendo uma peregrinação: 6,5 km na ida e 6,5 km na volta, 4 horas de caminhada pelas ruas não planas de San Francisco, somente para poder ficar 30 minutos de frente ao Palace of Fine Arts. Como o guia impresso explica, este é um monumento em estilo grego, remanescente de uma exposição de 1915. “Aos olhos de hoje, é uma triste e sentimental peça com colunata decorada com figuras chorando que representam a melancolia da vida sem a arte”.





Para mim, o Palace of Fine Arts não tem nada de triste. É uma coisa maravilhosa, num lugar maravilhoso, e, apesar das figuras femininas debruçadas chorando, isso é apenas um lembrete para a importância da arte, que os californianos não se esqueceram nem um pouco.

Não vou falar hoje sobre os museus de San Francisco que, como os de qualquer grande cidade americana (e não só Nova Iorque...), seriam uma comparação covarde aos nossos pobres MASPs.

Vou falar hoje sobre os dois fins de semana de “Open Studio” de Berkeley e Oakland. O que são os open studios? Como o próprio nome indica, os artistas da região abrem as portas de seus estúdios – ou ateliês – para mostrar seus mais belos trabalhos ao público e, claro, aproveitam para vender. O público especializado já freqüenta estes estúdios ao longo do ano, mas o público leigo não. E, como tudo neste país, a organização é extrema. Nas semanas anteriores há forte divulgação do evento nos canais de comunicação. Há uma revista que é impressa aos milhões (eu devo ter visto mais de 1000 exemplares espalhados pela cidade), e dentro dela há a apresentação de cada artista, o seu tipo de arte, e seis mapas destas duas minúsculas cidades indicando o local exato de cada estúdio. Isso não seria nada se houvesse uma meia dúzia de artistas. Bem, Berkeley e Oakland, as duas mais importantes cidades da East Bay, devem ter juntas por volta de 500 mil habitantes. E quantos artistas participaram do evento? Nada menos do que QUATROCENTOS E VINTE!!! (Será que conseguiríamos juntar quatrocentos e vinte artistas para expor seus trabalhos em toda a cidade de São Paulo?)

Quatrocentos e vinte aristas apresentando trabalhos em fotografia, artes plásticas, esculturas, cerâmica, vidro, jóias, etc. – e, dentro de cada categoria, as mais inimagináveis variações possíveis (inimaginável principalmente para nós, de um país sem tradição artística). Em artes plásticas, estão incluídas tanto a artista de telas “clássicas”que acabou de se mudar para cá de Chicago, quanto a amiga da Trish que faz arte, ou melhor Arte (e que Arte!) em quadrinhos. Seus trabalhos incluem desenhos cômicos da vida de uma artista, e também dramáticos quadrinhos em preto e branco sobre a fuga de 5 judeus da Alemanha nazista (nome e sobrenome verídicos dos personagens inclusos). Ainda em artes plásticas, há ainda o que eu chamo de “arte doméstica”. Trish adorou os lenços de seda pintados com águas vivas. Deste estúdio eu preferi os mesmos lenços, mas com variações abstratas em verde e azul. Tem ainda o artista descendente de mexicanos, que faz desenhos com uma técnica que eu absolutamente desconheço (e eu leio sobre arte!), mas que me pareceu usar nanquim e tintas coloridas. Suas gravuras são de traços finíssimos, coloridos com sombras escuras, numa combinação de virgens marias e dragões que remetem a alguma curiosa cultura exótica. Olhando a criatividade, o trabalho meticuloso dele, eu cheguei a uma conclusão: Eu sempre detestei arte contemporânea, achando-a uma desculpa para os “artistas” serem preguiçosos ao ponto de pintarem uma tela inteira com tinta de uma cor só, e chamá-la de “Sem Título”. A grande verdade é que, não é a Arte Contemporânea que é ruim. Ruins são todos os “artistas” que conheci até hoje. Certamente o que Pete Villaseñor faz é Arte Contemporânea, e certamente é lindo.
As manifestações de criatividade não param por aí. Um dos ateliês era de um senhor de meia-idade, que durante a semana certamente trabalha num banco ou num escritório de advocacia. Todos os seus trabalhos eram baseados em livros: estantes construídas a partir de livros, prateleiras construídas a partir de livros (para que livros de verdade fiquem empilhados em cima de falsos livros), mesas, sofás, etc. No chão do estúdio havia uma ratoeira de verdade e ... um “mouse” – de computador – preso nela. Que impulso de criatividade!!! Ainda ali, aqueles quadros de madeira com gancho para se prender chaves. Mas os dele eram todos combinados com títulos de livros conhecidos. Um deles era algo como “O Misterioso Sumiço das Coisas”. Quase comprei para minha irmã que vive perdendo suas chaves.
Foi neste fim de semana que descobri meu amor por cerâmica. Quando falamos em cerâmica no Brasil, pensamos em objetos de barro, primitivas, rudimentares (tem gente que também gosta deste tipo de cerâmica, o que eu respeito). Nada disso aqui. Objetos funcionais e belíssimos, coloridos, brilhantes, com formatos não descritíveis por palavras. Como é possível usar um prato em cujo centro encontra-se uma figura abstrata, numa combinação perfeita de cores e com bordas meticulosamente furadas? E tigelas, e canecos, e saleiros .... todos em cores lindíssimas (verde e preto, vermelho e preto, amarelo e laranja, azuis, degradês em todas as tonalidades, etc, etc, etc). E claro, os bules (há artistas que SOMENTE produzem bules). Mas são nos vasos e jarros que os artistas sentem-se mais livres para expressar seus sentimentos.
Finalmente, meu segundo amor, joalheria artística. Artistas que conseguem emaranhar, de forma bela, fios de prata e de ouro, combinando com pedras de cores raramente vistas. Pingentes que parecem finíssimos tecidos de ouro, com figuras também de ouro incrustadas por cima. Peças de nenhuma Vivara chega aos pés daquilo que vi. E a fantástica artista que perguntou: “- Por que o brinco de um par tem que ser idêntico ao outro?” Com o inteligente (e criativo) emprego da geometria, das formas das pedras e das cores, ela foi capaz de criar brincos absolutamente únicos – de um lado e do outro – mas que ninguém teria a menor dificuldade em encontrar seu par. Aquilo foi uma prova importante para mim de como vivemos numa sociedade de convenções que não fazem sentido.

Obviamente não visitamos todos os quatrocentos e vinte estúdios. Nem mesmo 10% deles. Mas já foi o suficiente para eu querer desesperadamente ser rica e poder comprar todos os objetos de arte que acho belos. (Só não comprei as cerâmicas pois não sei como levar na mala de volta para o Brasil). Os mais céticos diriam: “Ah, mas este tipo de evento é criado para fins comerciais!” É lógico que é! E quer saber? Eu não estou nem aí! E quem me dera se no Brasil houvesse mais mentes para ajudar os artistas a pensar e organizar Arte para fins comerciais! Aí, os artistas de verdade poderiam se sentir absolutamente livres de pressão, de preocupação, e de medos. Só assim, a Arte flui, e só assim é que é possível alcançar os limites da possibilidade criativa. Aí a criatividade (que o brasileiro adora dizer que tem de sobra) poderia se manifestar para fins puramente estéticos. Porque a Vida PRECISA de Beleza. E uma Vida sem Arte é absolutamente melancólica, como bem nos lembram as figuras do Palace of Fine Arts.