segunda-feira, 9 de fevereiro de 2009

Jetlag

Uma das tirinhas de Mafalda mostra a sua perplexidade quando ela, aos 6 anos de idade, descobre que, quando é de manhã na Argentina, já é de noite na China e de tarde na Europa. Conclui: “-Este país é atrasado até nisso... É por isso que somos sub-desenvolvidos: o tempo que usamos é o descartado pelos outros países...”

Se a lógica da Mafalda funcionasse neste caso (a lógica dela normalmente funciona muito bem!), esta terra onde me encontro, lar de Hollywood e do Vale do Silício, seria a mais atrasada do planeta, com exceção do Havaí, Tahiti e Bora-Bora – mas tenho certeza de que o pessoal destas últimas ilhas não faz a menor questão de ser avançado nem no tempo nem em nada. A verdade é que esta estória de fuso horário é para mim ainda meio mística. A experiência mais surreal que eu tive com fuso horário foi um vôo que fiz de Los Angeles para Tokyo, parte de uma viagem do Brasil para Taiwan/Hong Kong. Partimos por volta do meio-dia, e logo dali era tarde. E a tarde chegou, e foi ficando, foi ficando, foi ficando... e nada da tarde ir embora... Olho para o relógio – que já havia sido ajustado para o horário de Los Angeles – e eram 4 da manhã em L.A.!!! E o sol continuava feliz e contente brilhando como se fossem 3 da tarde!!!! Era como estar dentro de um filme de ficção científica: “A Tarde Sem Fim”...

Dias atrás, no vôo vindo para San Fran, depois de passar um ano lendo muito sobre física quântica, big bangs, teoria da viagem no tempo de Einstein, etc. comecei a me perguntar: qual será a velocidade que o avião deve alcançar para que, viajando no sentido Leste-Oeste, ele exatamente compense o movimento de rotação da Terra? Se for possível viajar neste avião, a hora nunca passaria!!!

Devaneios à parte, sobra ainda uma pergunta que é muito real e refere-se a algo que sei que muita gente já passou ou vai passar: O que acontece quando alguém dá a volta ao mundo indo somente em uma direção? Por exemplo: eu saio do Brasil, passo pelos EUA, vou para a China e, ao invés de voltar pelo Pacífico, eu decido dar uma “esticadinha” pelo Oriente Médio e pela Europa, e voltar da Europa para o Brasil (exatamente o que eu planejo fazer algum dia...). O resultado disso é que eu vou ganhar – de graça – 24 horas na minha vida!!! Para sempre!!! Sem devolução necessária! Este é justamente o grande clímax do livro/filme “Volta ao Mundo em 80 Dias” e o grandioso lance de Julio Verne para o final fantástico de sua obra (quem não leu, paciência, o livro é de 1873, o filme clássico é de 1956 e ainda há o de 2004, então eu não tenho obrigação de não contar o fim...). Mas – físicos quânticos, hello! – como assim? Lavoisier disse que “na natureza nada se cria, nada se perde, tudo se transforma” (eu sei... ele não é físico quântico, cito ele por causa da genial descoberta). Neste caso, o que transforma em que? Os físicos não dizem que até os milésimos de segundos devem ser cuidadosamente levados em conta? O Big Bang aconteceu num deles... E a vida de algumas partículas dura exatamente isso... (Pra quem está boiando, bem feito! quem mandou não ir à exposição do Einstein no Ibirapuera?) E o que fazer então com 86.400 segundos inteiros, que, de repente, aparecem na sua vida – ou então somem, para aqueles que preferirem começar a bela viagem pela Europa e fazer o caminho contrário ao que eu sugeri. Mistérios, mistérios do Universo (ou de todos os corpos celestes que tem movimento de rotação).

Bom, esta conversa toda começou quando eu comecei a achar estranho que meus dias não estavam rendendo. Meu sono está chegando invariavelmente às 10 da noite, e todos os dias, antes da 7 eu já acordo, sem necessidade de despertador (isso nunca aconteceu antes!!!). Meu grande amigo Pérsio, super viajado, me disse uma vez que, para cada uma hora de diferença no fuso horário, nosso corpo precisa de um dia para se recuperar. Jamais me esqueci da “regra de Pérsio”. Entretanto, a conta não esta fechando desta vez... O mais estranho de tudo é que não estou vivendo nem o horário de São Paulo, nem o de San Francisco/Berkeley. Acho que durante o vôo da vinda deixei meu corpo esquecido em algum lugar do Arkansas... Ou então, o que é mais possível, é o que uma amiga minha concluiu com relação a este assunto: - Estamos ficando velhas... (O Pérsio vai ter que chegar a uma nova regra para pessoas acima de 30 anos...)