A maior frustracao da minha vida foi nao ter me tornado diplomata, ou melhor, nao ter sido permitida para isso. Lembro-me exatamente bem daqueles 15 minutos na sala da Coordenacao do Instituto Rio Branco em Brasilia, aos 13 anos de idade, acompanhada de minha mae. A coordenadora deu-me a noticia de que eu nao poderia ser admitida no instituto por nao ser brasileira nata, assim como um medico que comunica a mae que seu bebe nasceu morto. E foi o que aconteceu: um sonho morto antes mesmo de nascer. Naquele dia tive o primeiro contato com a Constituicao Brasileira: queria certificar-me que a coordenadora dissera a verdade.
Hoje no entanto percebo que, para ser diplomata, alem de falar varias linguas e gostar de viajar, eh necessario antes de tudo ter equilibrio emocional. O exame do Rio Branco deveria incluir um rigoroso teste psicologico (se eh que isso existe...). E honestamente, eu nao sei se passaria. Lembro-me de quando estava em Madison, Wisconsin, tive a oportunidade de ser rommate de uma aluna brasileira que estava por lah fazendo um intercambio de 6 meses. 6 meses. E ela me dizia os rios de lagrimas que seus pais haviam derramado em sua partida do Brasil. E ela, invariavelmente todas as sextas feiras, depois de nossa sessao de musica baiana e vinho, tambem derramava lagrimas e lagrimas de saudades do Brasil. 6 meses. Eu nao conseguia entender este desperdicio de recursos fisiologicos. Mas, com minhas proprias justificativas tambem cheguei a derramar muitas lagrimas nos meus 4 anos longe da terra-mae.
O grande antropologo Levy-Strauss jah dizia que eh inerente ao ser humano, ou melhor, a todas as culturas humanas, considerar inferiores os usos, costumes e habitos diferentes dos seus. "O cafeh brasileiro eh melhor que o americano", "O suco de laranja brasileiro eh mais gostoso...", "As pessoas sao mais bem-vestidas, mais bonitas..." Atire a primeira pedra quem jah morou no exterior por mais de 3 meses e nunca fez - ao menos mentalmente - uma comparacaozinha sequer.
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A experiencia ajuda a amadurecer. Alguns anos atras, esperar na fila da imigracao americana era o climax da tensao de toda a viagem. Hoje enquanto aguardo a minha vez, fico observando cada um dos guiches e me perguntando se hah algum deles nao ocupado por um funcionario hispanico. Chegando a minha vez, cruzo a faixa amarela. "How are you?", cumprimenta-me o jovem rapaz, mas sem uma sombra de sorriso no rosto. Leio a plaquinha de identificacao presa ao seu uniforme: "Ortiz". Nem precisava, o sotaque do ingles dele eh mais carregado do que o meu. A Imigracao norte-americana eh muito inteligente: os piores algozes sao aqueles destinados a aniquilar a sua propria raca. Miami eh ainda um caso extremo. Da ultima vez em que aqui estive, nas exatas 24 horas em que estava em transito, nao consegui falar com uma viv'alma caucasiana. O governo federal deveria pensar seriamente em proibir a abertura de escolas de lingua inglesa nessa cidade: presta um enorme desservico a cultura norte-americana.
Com os pes firmes em solo americano, pela primeira vez a "ficha caiu": estou indo para San Francisco! E encaminho-me em direcao ao portao do voo. Ainda eh cedo. Espero a loja de cafeh abrir. Dias atras, na sua despedida, papai pediu um cafeh espresso soh para me acompanhar: "-Lah nos EUA nao vai ter cafeh assim, nao eh mesmo?". "Eighty-six cents!", a caixa me informa. Ou seja, bem mais barato que aquele cafeh que tomei com papai em Congonhas... Coitado do papai...
Mais acordada, nao posso deixar de reparar que realmente estou em terras americanas. Vejo uma moca loirissima que, no Brasil, estaria no auge de sua juventude e vaidade, pondo em pratica tudo o que sabe sobre a seducao feminina. Aqui, ela veste um short samba-cancao azul, uma camiseta branca disforme, e deve pesar no minimo 120 kg - o que nao a impede de comprar um croissant de queijo derretido e presunto as 6 da manha. Logo adiante, vejo tambem um senhor de uns 40 e tantos anos, cujos cabelos tem comprimento muito alem do que dita os bons modos, e que nao devem ver xampu ha algumas semanas. Finalmente, estah a aeromoca com cabelo duro de laqueh.
Devo estar tendo a tipica reacao primitiva identificada pelo velho Levy-Strauss. Mas a experiencia deve servir para alguma coisa. Agora tudo isso eh fonte de humor - e material para este blog!
PS. Tempos de crise: as refeicoes dos voos domesticos agora sao pagas!!! Sanduiche de peru e queijo: $6 dolares. Torradas com geleia e manteiga: $4 dolares. Cookies com pingos de chocolate (chips): $3 dolares. De graca, soh um copo de agua com gelo que a aeromoca do cabelo de laqueh acaba de me servir...