Estou sentada numa das mesinhas externas do Café Strada, um dos cafés mais populares do campus. Os sinos do Carillon Tower estão tocando (uma de suas duas apresentações diárias). Somado a tudo isso, as flores coloridas espalhadas por todos os lugares, e o café gelado delicioso que estou tomando... posso dizer que sinto uma momentânea e inambiciosa sensação de felicidade (com “f” minúsculo, mas mesmo assim, felicidade).
--------------------------------------
Os cafés são uma instituição de importância crucial na vida universitária norte-americana. Toda universidade tem, como anexo, um conjunto peculiar e nunca pouco numeroso de cafés. Em Madison, Wisconsin, a principal (e única...) rua, a State Street começa e termina com um café. Na Brown, o café é o local de encontro de associações de estudantes, inclusive a dos brasileiros. A primeira coisa que se vê ao se aproximar do campus de Harvard é a livraria da universidade e o café. Aqui em Berkeley, logicamente, não seria diferente. O programinha que tenho no meu IPhone, o “Around Me”, sugere-me 31 cafés perto de mim, num raio de 1 milha (1,6 km). É claro que tem mais, já sabendo que nenhum dentro da universidade entra na lista. Nestes 2 meses que estou aqui, já escolhi 4 favoritos: o Strada, o Café da International House (também muito popular), o Café Terrace e o “Free Speech Movement Café”. Todos os quatro têm algumas características importantes: localizados dentro do campus, grandes o suficiente para acomodar bastante gente, e, mais importante, com mesas ao céu aberto para dias lindos como hoje.

O Strada tem um amplo espaço aberto e está do lado da Law School, por isso, os advogados o amam. Entrei em contato com um professor de direito de Columbia, e, ao saber que estou em Berkeley, ele só se lembrou de perguntar como andava o Café Strada... Mas outros cientistas também se rendem a ele. Um amigo físico, que faz pos-doc em San Francisco e nunca morou em Berkeley, veio um domingo almoçar comigo. Para manter a minha velha tradição brasileira, convidei-o para tomar um café depois do almoço. Eu disse que tinha um lugar aberto, muito popular bem perto do campus. “- Eu acho que você deve estar falando do Café Strada...” Foi este mesmo amigo que falou que ouviu notícias de que algum tempo atrás, veio uma quadrilha e fez um “arrastão” por aqui, levando o notebook de todas as pessoas. Seria irônico, pois a polícia do campus fica a alguns metros daqui...
O “Free Speech Movement Café” fica na biblioteca dos alunos de graduação, a Moffit. Homenageia o movimento que nasceu em Berkeley em 1960 e se espalhou pelo mundo inteiro. Tem um lindo terraço que dá de frente a um dos meus prédios favoritos no campus, o da Biologia. Fora isso, a localização também é excelente, bem no coração do campus.
O Café Terrace é a única coisa que os economistas tem de bom neste campus. Mas na verdade, ele está localizado no prédio da Engenharia (que fica do lado da Economia). É um grande terraço, não só com mesinhas ao ar livre, mas o próprio café também mal tem portas. E o melhor para mim, são as “cabinezinhas”, onde ficam algumas mesas de madeira. Eu poderia ficar lá por horas e horas, principalmente num dia em que não estivesse muito quente.
Finalmente, o Café do International House, a uns 200 passos da porta do meu quarto. Quando estou de saco cheio da comida o IHouse, ou quando quero comer um bolinho de chocolate (muffin), ou melhor, quando estou a fim de sentar num belo dia de sol olhando para a Golden Gate e a baía de San Francisco, eu vou para lá.

E qual é o papel dos cafés na vida universitária? Eu já disse que aqui se estuda MUITO (eu disse MUITO), e as pessoas não tem problema em mostrar que passam o tempo todo estudando. E as pessoas são descontraídas, não suportam repressões. O café sintetiza um ambiente que atende bem a todos estes requisitos: as pessoas vêm com seus notebooks e cadernos e ficam estudando (como parece que estou fazendo neste exato momento), quanto tempo quiserem. O ideal do café é que ninguém vai vir encher o seu saco, muito menos garçons ou garçonetes excessivamente solícitos querendo limpar sua mesa – como se faz no Brasil (o lugar mais remotamente parecido neste quesito é o Starbucks da Alameda Santos com a Campinas; espero que eles não mudem!!!). Pagando US$ 2,60 por um café posso ficar aqui o tempo que quiser. A sofisticação tecnológica faz com que todos eles, mesmo os fora do campus, ofereçam ambiente wireless. Além disso, se você vier cedo e conseguir um bom spot você ainda consegue não gastar a bateria de seu notebook plugando-o a uma tomada (Infelizmente não foi o meu caso hoje...). Se você for cara de pau, tem tomadas específicas para recarregar o seu celular também. Outras vantagens dos cafés: você pode falar no celular, no skype, com amigos que porventura passem, fumar, e, claro, comer. Os meus quatro favoritos ainda permitem que se veja a movimentação da rua, dos passarinhos nas árvores, dos aviões no céu, e se pegue uma “corzinha” tomando sol. É difícil não ser feliz assim... Mesmo estudar fica muito mais fácil... E é isso que vou fazer agora...
