segunda-feira, 16 de março de 2009

A Academy of St. Martin in the Fields, ou Luciana no país dos Maravelhos

Numa tarde de quinta-feira, voltando de fora, decido que é hora de enfrentar novamente a caixa de correios. Deixo todo o material que carregava em cima de uma mesinha, abro minha carteira e pego o pequeno cartãozinho verde com instruções:
“Vire a chave para a direita 3 vezes. Depois, pare no ‘I’, então vire a esquerda, passe pelo ‘I’, e pare no ‘F ½’. Daí vire para a direita e pare no ‘A’. Então gire a pequena maçaneta para a esquerda e puxe a portinha para abri-la”. Detalhe: o tamanho da caixa de correios é de uns 8cm x 10cm...
Felizmente, desta vez, havia um monte de coisa dentro. Das duas últimas vezes, depois de seguir todas as instruções, eu havia me deparado com uma caixa vazia. Senti-me uma completa idiota (lembro-me de ter falado um palavrão numa das vezes). Ao pegar meu material de volta, sem querer, acabo levando um exemplar de jornal que estava em cima da mesinha. Dou uma rápida olhada na capa: programação semanal dos eventos no campus. “Não custa nada levar!”

Horas depois, faxina diária: jogar os 500 papéis que recebemos ao longo do dia (tem manual pra tudo neste país: além de equipamentos eletrônicos, tem manual para o aluno, manual para o visitante, manual para o estrangeiro, manual para o aluno visitante estrangeiro, manual do seguro de saúde, manual do metrô, manual de cada uma das 20 bibliotecas do campus, 70 páginas de manual do residente do International House, etc...). Antes de descartar o jornalzinho que tinha acabado de pegar, dou uma folheada rápida. Vejo a foto de uma bonita loira, fazendo pose com um violino: “Revelação do ano 2007 aos 24 anos, a alemã blá, blá, blá...” Já estava virando a página quando... Peraí! Eu li “Academy of St. Martin in the Fields”? Volto e leio o quadro que ocupava meia página do jornal. Eu não acredito! Releio tudo. A Academy of St. Martin in the Fields, uma das mais famosas orquestras do mundo (de Londres) estaria tocando dali a 48 horas, a 500 metros da minha “casa”!!! Na manhã seguinte, estava eu na bilheteria comprando meu ingresso.

Sábado. Chovia e fazia um frio inimaginável para as terras californianas. A emoção fez-me esquecer tudo isso, fantasiar-me de cebola e sair para a rua. Entro no teatro uma hora e quinze minutos antes do concerto começar. Haveria antes uma palestra acadêmica sobre os compositores da noite (Britten, Bach e Walton). Anunciado o nome do palestrante, vejo duas pessoas entrando vagarosamente no palco e... um cachorro golden retriever! O professor palestrante era cego!!! Meus olhos ficaram molhados. Primeiro porque cachorro e música clássica são duas coisas que tocam profundamente minha alma. Os dois juntos, ao mesmo tempo, tem um efeito multiplicado. Segundo porque... caramba ! Que lugar maravilhoso, onde as pessoas são respeitadas pelo o que são, e têm de fato as mesmas oportunidades! O requisito aqui é ter mérito. Será que a proporção de cegos, deficientes físicos no Brasil é mais baixo do que aqui? Por que eu nunca vi nenhum cego, nenhum cadeirante na USP, na Unicamp, etc. e vejo em várias escolas daqui, muitos exercendo cargos de destaque?

Depois da ótima palestra – em que o cego ligou, deu fast-forward, rewind, etc no CD de Bach – o público que não quis assisti-la começou a chegar. E chegava, e chegava, e o grande teatro foi enchendo, enchendo... de idosos!!!!! Quando eu digo idosos, estou dizendo, mais de 60, 65 anos de idade, cabeleira branca (homens e mulheres), com certeza aposentados já há alguns anos. De início aquele foi um mero detalhe. Com o passar do tempo, fui começando a achar que tinha algo de muito errado. Mas não tinha. E os velhos continuaram chegando, até eu ser rodeada por eles pela frente, pelos lados, por atrás... Só não fui acometida por um sentimento de pânico, pois eu vi uns 20 “jovens” (certamente não mais do que isso) naquele teatro que tinha capacidade para mais de 2 mil pessoas e que estava pelo menos 70% cheio. Pensamentos foram inundando minha mente: cadê a população jovem daquela que era uma cidade universitária? Os jovens não vieram porque o ingresso era caro? Eu paguei 53 dólares para assistir à Academy of St. Martin in the Fields, porque dada a burocracia da universidade eu ainda não tinha conseguido tirar o Cal ID e não consegui nenhum tipo de desconto. No Brasil, eu teria pago 104 reais, no mesmo lugar (mezzanino) para assistir a uma orquestra local. E aí comecei a filosofar sobre questões de concentração de renda no Brasil vs. EUA (em todas as vezes que vou a concertos em São Paulo, eu sempre encontro com alguns alunos do IBMEC, sem contar que nunca me ocorreu de passar por algo parecido aquela noite). Felizmente, logo, logo o espetáculo começou. Deixei de lado as dúvidas sociológicas e o desconforto de estar invadindo o terreno dos velhinhos, entreguei-me de corpo e alma para a apreciação da boa música daquela noite.

PS1: A Academy of St. Martin in the Fields também é quase inteiramente dominada por “velhos” – mas bem mais novos que a platéia daquela noite. Entretanto, eles não tem maestro (como nos velhos tempos do barroco) mas tem uma diretora (a primeira-violinista), que é a tal da alemã de 24 anos de idade! Perto dela – e do talento dela – EU me senti uma velha!!!

PS2: Dias depois, fui a um concerto do Departamento de Música da universidade, pagando 10 dólares para ouvir um piano original de 1857. Desta vez, a platéia estava lotada de jovens estudantes (que pagaram 5 dólares). A questão da concentração de renda FAZ sentido! Mas vamos deixar isso de lado... O espetáculo foi uma maravilha, apresentada por jovens de 22, 23 anos que NÃO SÃO alunos de Música: Biologia, Engenharia, Astrofísica, Psicologia... E eu, aos 34 anos, mal consigo arranhar três escalas na flauta... Shame on me!