segunda-feira, 13 de abril de 2009

Morando num dorm (1)

29 de Janeiro de 2009, meio-dia. Jamais vou me esquecer deste dia e desta hora. Peter e Trish tinham acabado de me buscar no aeroporto de San Francisco e chegávamos à recepção do International House, bem no campus da UC Berkeley.



A gerente recepcionou-me muito simpática, com a simpatia americana, mas foi o aluno quem me deu as orientações. Tendo passado por estas terras antes, já sabia que trabalho não qualificado numa cidade universitária somente é exercido por negros, latinos e alunos querendo ganhar uma graninha extra. Aqui na Califórnia ainda tem os cantoneses. A orientação do aluno foi longa, não me preocupei em captar nada, sabia que no dia-a-dia iria aprender e que as informações mais importante não foram dadas (dito e feito...). Só prestei atenção à informação de que a chave em forma de coração era do meu quarto, e a de forma de diamante era de todos os banheiros femininos do prédio que, “por questões de segurança”, tinham tranca (homem não é atacado por tarados nos banheiros?). Eu e Trish empurramos a pesada mala até o elevador, chegamos no 3o andar, e deparamo-nos por corredores infindáveis de um e de outro lado. Caminhamos, caminhamos, caminhamos o que parecia um trajeto sem fim, olhando diversas placas indicando a direção desejada. Finalmente, depois do que vim a saber serem 180 passos, deparamo-nos com o número 328 (os quartos NÃO seguem a seqüência dos números!) Abro a porta e... meu coração quase cai ao chão. Um pequeno quarto, escuro a ponto de precisar de luz naquela hora do dia, móveis de madeira “sem graça” destacando a sua vaziez, paredes cor de creme (eu DETESTO paredes cor de creme!!!!), e o chão de uma insuportável nudez de um granito artificialmente marrom claro/laranja. Pelo Feng Shui chinês eu diria que ele não conserva a energia. No bom e simples português, ele simplesmente é frio! Não tive muito tempo para delongas. Acompanhei Trish de volta para seu carro e passei o resto do dia desfazendo mala e recuperando-me do cansaço dos últimos dias de viagem e de agito por conta do casamento da minha irmã. No dia seguinte, comecei a fazer a listinha de compras: tapete, quadros para a parede, flores, almofadas,... Peraí!!! Este lugar NÃO É a minha casa, eu vou ficar aqui por apenas alguns meses e eu não vou gastar o dinheirinho contado para a decoração deste lugar! Pensando nisso, mas sabendo que eu não suportaria ficar num ambiente feio comecei a improvisar. Em cima da cama (de solteiro) estava algo que na lista aparecia como “protetor de colchão”. É um simples feltro branco; ótimo, perfeito como o novo tapete do quarto. O calendário de flores que trouxe do Brasil ficará em cima da mesa e substituirá as flores de verdade. Folhas dos meses que já se passaram serão os novos “quadros” das paredes. Com o passar do tempo, também fui colando folhas de papel com mensagens de auto-incentivo: “Objetivos até o fim do semestre”, “Por que estou aqui?”, “Sendo feliz sozinha” e coisas do tipo. Depois de comprar minha impressora, as coisas ficaram melhores ainda: papel impresso com tintas coloridas, letras de caligrafia e também, algo que eu tinha resistido inicialmente, proclamar aos quatro ventos minha origem brasileira (NAO ME CONFUNDAM com os asiáticos daqui!!!!). Hoje, quem passa pela frente de meu quarto verá a seguinte imagem colada na minha porta*:





Naquele fim de semana, ainda abatida pelo Jet-leg (como já descrito neste blog anteriormente), vou para a cama muito cedo, mas... às 10:30 da noite ouço um barulho infernal da parede do outro lado: musica altíssima, cantoria, meninas berrando... Sim, meu vizinho – whoever that is – estava dando uma festa dentro de seu quarto. A festa durou até por volta da meia-noite... e voltou às duas da manhã!!! Levantei-me e fiz uso do notebook adquirido naquele mesmo dia: escrevi um longo email, furiosíssima para a coordenação do IHouse. Dizia que era uma aluna de doutorado que queria paz e que não era pelo fato de ser fim de semana que eu não tinha direito a sossego; fui cínica dizendo não saber que era permitido ter festas nos quartos. Enfim, nunca fui tão arrogante e chata, mas a vontade na hora era escrever muito mais. Dias depois, recebo uma mensagem da supervisora, pedindo mil desculpas pelo ocorrido, dizendo que meus vizinhos seriam advertidos e deu-me orientações caso ocorresse algo semelhante novamente. No dia seguinte, dois jovenzinhos vieram bater-me na porta. Não, não eram meus vizinhos, mas os monitores do andar. Vieram saber exatamente o que aconteceu e novamente me deram as orientações para caso algo me incomodasse novamente. Infelizmente, a simpatia do “staff” gerou-me mais conforto psicológico por ter sido bem tratada do que utilidade prática. Depois disso, eu infelizmente precisei de outras vezes, por motivos diversos (pelo menos, meu vizinho não deu mais festas, ou melhor, festas grandes), mas o acionamento dos comandos não deu muito resultado. Depois da terceira tentativa eu desisti e cheguei a uma conclusão: estou velha demais para morar num dorm.

(continua na semana que vem)
*Produto importado ao mercado francês, por uma empresa chamada Tropic-Concept: http://www.tropic-concept.com