segunda-feira, 11 de maio de 2009

Bibliotecas...ah as bibliotecas! (parte 2)

O que dizer sobre a Law Library? Ela é o meu principal local de trabalho, meu lar (muito mais do que a IHouse, que fica do outro lado da rua), uma parte de meu ser aqui em Berkeley... Apaixonei-me no mesmo instante em que a vi, logo no primeiro ou segundo dia nestas terras. É como se o arquiteto tivesse feito o projeto atendendo fielmente aos meus desejos mais íntimos: ampla, pé direito alto, paredes revestidas de madeira clara, grandes janelões de um lado, belas coleções de livros de capa dura e letras douradas impecavelmente ordenadas, mesas de estudo enormes, sofás de veludo cinza escuro, e muito, muito iluminada. Sendo uma pessoa avessa a rotinas, ela conseguiu fazer-me vir para cá de segunda a segunda, com raríssimas exceções, desde a primeira semana de Fevereiro. Eu descobri uma rádio na internet onde só se tocam músicas de piano solo, extremamente suaves. Estar naquele ambiente da Law Library, no silêncio absoluto que as pessoas conseguem fazer ali, com os fones de ouvido emitindo as músicas de piano, enquanto eu estudo algo pelo qual tenho paixão, é uma das formas mais próximas de se materializar o Paraíso que já consegui.



Nesta biblioteca existe uma famosa coleção de livros sobre direito romano e direito canônico (o direito da Igreja Católica): a Robbins Collection. Fica numa sala especial, com mesas especiais, já que existem raríssimos exemplares datando do século 17, muitos deles em latim. Para melhor desenvolver o argumento em uma passagem de minha tese, enfurnei-me naquela sala por 2 semanas seguidas. A bibliotecária especialista já me conhecia; faltou ela me oferecer a chave da sala pra não ter que ficar tocando a campainha toda hora pra entrar... A única coisa não muito boa da Law Library é na hora em que tenho que procurar os livros nas estantes. Eles ficam nos andares de cima, pegando-se os elevadores. As salas do acervo são completamente desertas, frias e, para acender a luz, ligamos tipo um daqueles cronômetros de cozinha marcando os minutos. Findo os minutos pré-marcados, a luz se apaga. Sempre fico morrendo de medo de ir para estes andares e é impossível fazer o que mais gosto com um espírito leve: ler todos os títulos de uma estante, de cima para baixo, da esquerda para a direita. Lembra-me também dos andares da Memorial Library em Wisconsin, da ala sul dela, igualmente fria, deserta e com paredes verdes claras. Mas lá havia espaços exíguos com mesa e estante alugados semestralmente para alunos!!! Eu ficava me perguntando como alguém em sã consciência topava alugar um troço daqueles e ficar o semestre inteiro estudando lá!!!

Se eu pudesse descrever a Morrisson Library com poucos termos eu diria: é a coisa mais fofa que possivelmente existe no campus da UC Berkeley, e eu aposto que pouquíssimos alunos, principalmente de pós-graduação, a conheçam. Lanço o desafio para ver se algum aluno brasileiro já passou uma tarde lá (e olha que cada dia descubro um brasileiro que estudou por aqui...) Explico: uma bela sala de estar em estilo vitoriano, muita cortina, tapete, muitos sofás e poltronas deliciosas, lustres e abajures antigos bonitos, estantes e paredes também de madeira, mas de estilo clássico e não moderno como na Law, paredes repletas de livros, mas... se olhar de perto vai logo perceber a diferença: são todos romances, livros de artes, decoração, fotografia, história e também há muitos CDs e áudio-livros. Explicando mais: é proibido entrar com laptops e câmeras fotográficas por aqui. Explico finalmente: esta é uma biblioteca explicitamente dedicada à leitura de lazer, às horas vagas. Claro que se você quiser, pode trazer seu livro de bioquímica para ler aqui, ou pode escrever o seu paper sobre a sociologia dos moradores de rua nas grandes capitais modernas (a mão, sem laptop...), mas parece-me, numa rápida sondada, que poucos aqui têm este tipo de interesse... É neste local que se reúne a associação de poetas da cidade em seus encontros anuais. E foi aqui que passei três horas revirando dois livros de fotografia da cidade de Berkeley, conhecendo um pouco mais sobre esta cidade que está sendo meu lar nestes meses. Saí de lá com uma lista de “lugares para visitar”. Tenho cumprido gradualmente esta lista... (Não preciso dizer que Morrisson foi outro homem iluminado – um advogado neste caso – que deixou fortuna e livros para a universidade).


(Foto encontrada na web, já que reles mortais não podem entrar com câmeras lá dentro...)

Não dá para nem ao menos mencionar todas as outras bibliotecas que freqüentei no campus, tenho constantemente descoberto outras, de forma propositada. Talvez outra que mereça menção é um lindo, recém inaugurado (2008), em estilo muito moderno: a East Asian Library (meio contraditório o estilo do prédio com a cultura ali representada). Ao pisar nela, ninguém pode dizer que está numa universidade americana: quatro grandes andares de livros completamente escritos em chinês, japonês, coreano e afins, pinturas nas paredes também todos asiáticos, até mesmo o bibliotecário. Também estão disponíveis aos interessados bancos de dados inteiros com estatísticas destes países e de outros da região. Só digo uma coisa: é impressionante. Também é delicioso estudar no meio de modernas lanternas pseudo-orientais, perto dos grandes janelões de vidro olhando para o verde lá fora. Difícil é disputar os melhores lugares com os alunos orientais, que já estão todos ocupados 15 minutos depois da abertura da biblioteca na tarde de domingo...



Escrevendo este blog, descobri no site da universidade uma página entitulada “Secret Sites for Study”. A semana de finals está aí. Os alunos americanos, assim como os brasileiros (acho que do mundo todo), deixam para estudar tudo de última hora. Mesmo com as 27 bibliotecas e os quase 50 cafés, pode ser difícil encontrar lugares disponíveis para se estudar confortavelmente. Algum funcionário se deu ao bom trabalho de relatar quais são as bibliotecas – e os cafés!!! – menos lotados. Percebo nesta lista lugares que não entram na lista oficial de bibliotecas. Meus olhos brilham: mais lugares para conhecer! Estou louca para conhecer a biblioteca da Filosofia. Parece outra sala em estilo clássico, com ares de biblioteca das mansões onde ocorrem os assassinatos de Agatha Christie (foi a primeira coisa que passou pela minha cabeça ao entrar na Morrisson).

Prevendo já a semana de finals, eu tinha anotado na agenda: sair do campus, ir para as bibliotecas públicas. E isso quase merece um capítulo a parte. Já conheço a sua fama, da primeira vez que vim para os EUA. Não basta dizer que elas, por algum motivo, são todas modernas, com móveis bonitos, bem iluminados, bem arquitetados (normalmente com mais de um andar). Não basta dizer que em todas elas há seção de revistas, CDs e livros infantis (sempre a seção mais bem estruturada), e que você pode pegar emprestado tudo de graça. Não basta dizer que as famílias passam sábados inteiros com seus filhos aqui. Além de tudo, é preciso dizer que, não é que exista uma belíssima biblioteca em todas as cidades americanas, por menor que a cidade seja. Existe uma belíssima biblioteca em CADA BAIRRO de uma cidade, por menor que ela seja. Veja bem, Berkeley tem uma área de 27,2 km2, ou seja, menor do que Pinheiros, Itaim e Jardim Paulista juntos. Entretanto, nela existem SETE bibliotecas públicas, sem contar com as 27+ que existem dentro da universidade... E isso não acontece somente porque estamos numa cidade de reconhecimento acadêmico mundial, ou no mais rico estado do país. Minha prima mora no meio do Midwest, numa cidade chamada Minnetonka. Alguém já ouviu falar dela? Nem eu, até alguns anos atrás. Mas hoje eu já conheço 3 bibliotecas públicas lá, sendo que devo ter passado uns 20 dias no total naquela cidadela. A primeira pergunta que me passou pela cabeça quando conheci as bibliotecas públicas de Minnetonka, vendo aquela beleza, aquela organização, ar-condicionado, móveis, etc. foi: “Como existe dinheiro público para tudo isso?” Demorou um pouco para eu encontrar a resposta. E no dia em que alguém a encontra, também vai saber responder àquela outra pergunta, que fiz no começo da primeira parte deste texto: por que os EUA são o país mais desenvolvido do mundo, enquanto o Brasil ainda tem que fazer muito esforço para provar que é um país de respeito. Alguém se arrisca? (Qual prefeito ou governador brasileiro ousaria anunciar publicamente que vai gastar milhões de reais para reformar as bibliotecas públicas de sua região?)