terça-feira, 5 de maio de 2009

Bibliotecas...ah as bibliotecas! (parte 1)

Sem pudores, eu confesso com toda a franqueza do meu coração, que a primeira coisa que eu pensei quando cogitei em passar um ano fazendo “sanduíche” nos EUA não foi trabalhar com o professor fulano de tal, morar na cidade fantástica X, estudar no departamento Y, foi: “-Ó Meu Deus, ter as bibliotecas denovo!!!” Se me pedissem para indicar uma única diferença entre os EUA e o Brasil que explique porquê o primeiro seja conhecido como o país mais desenvolvido do mundo, e o segundo ainda tenha que fazer muito esforço para provar que é um país de respeito, eu não teria a menor hesitação em responder: as bibliotecas! Porque por trás de como as bibliotecas são, está toda a concepção de um povo, os valores da sua cultura, a forma explícita como a nação olha para seu passado, seu presente e seu futuro, e quais são as prioridades inquestionáveis. Quero deixar claro que as bibliotecas não se resumem às bibliotecas escolares – e aí, mais uma diferença entre os dois países. No próximo blog espero poder contar um pouco também sobre as bibliotecas comunitárias.

Como disse, antes mesmo de vir para cá, eu já estava excitada o suficiente com a perspectiva de poder passar todo o tempo do mundo nas bibliotecas. Na minha cabeça, estavam as lembranças das bibliotecas de Wisconsin, extremamente funcionais. Lembro-me da Memorial Library, a principal da universidade, com mais de 13 andares e corredores repletos de livros e que ficava nada menos do que 24 horas aberta durante todo o ano letivo, fechada apenas durante o Thanksgiving e no dia 1o de Janeiro. A outra que eu costumava freqüentar era a College Library, que tinha um expediente mais “curto”: das 7h45 da manhã até as 1h45, também da manhã (nunca vou me esquecer deste horário, apesar de nunca ter entendido os 45m). Todas com amplos laboratórios de computadores, super modernos (naquela época os alunos não tinham ainda laptops...) e muito, muito espaço para estudar em paz (os salões de estudo da College tinham janelões mirando para o lago da cidade). Eu sabia que Berkeley não me decepcionaria neste quesito... Pois assim que cheguei, percebi que além de funcionais, as bibliotecas (bem como outros prédios) são arquitetonicamente maravilhosas! Para mim, isso era (é) exatamente estar no paraíso! Para começar, são 27 bibliotecas no campus; um sistema com horários, localizações, mapas, sites e, mais ainda, base de dados eletrônicos tão complexos que honestamente, chega a ser meio assustador.

Obviamente, eu já tinha pensado em escrever um blog sobre as bibliotecas desde a primeira semana que cheguei. A grande culpada pela demora é a Doe Library, a principal da universidade, que abriga a coleção de Ciências Sociais e Humanidades. No primeiro dia em que a vi, eu fiquei de queixo caído, boca aberta, não conseguia parar de olhá-la, achava que estava no meio da Grécia. E eu não estava errada: muito tempo depois, fiquei sabendo que ela foi construída nos moldes do Partenão de Atenas.


Bem, e porque ela me fez demorar para escrever? Porque, olhando de fora, eu já vi que era um lugar gigantesco – isso porque eu não tinha visto os 4 andares por baixo da terra e que a conectam à outra biblioteca do outro lado da praça. Entrei timidamente num dos dias, mas fiquei com medo: eu iria me perder ali dentro com certeza! Para minha sorte, e não contrariando a organização norte-americana, há “tours” todas as semanas pela Doe Library. Por vários motivos, perdi todas elas até finalmente conseguir participar o do dia 30 de Abril. O tour demora nada menos do que uma hora. Logo na entrada, vemos uma escultura em tamanho natural de um dos intelectuais mais simpáticos dos EUA, morador por muito tempo de San Francisco:


(Mark Twain lendo seu próprio livro "Huckleberry Finn")

Resumindo o tour: são 10 milhões de livros (não parece, mas é muita coisa!), quatro andares, cada um com mais de 150 x 20 metros só de estantes de livros, algumas daquelas compactas, que se aperta um botão para que uma estante se afaste da outra (ocupam metade do espaço e, assim, cabem mais estantes num mesmo espaço). A Business Library de Wisconsin também tinha este sistema, e quando eu ia pegar livros ficava torcendo para que eles estivessem numa estante destas para que eu tivesse que apertar o botãozinho... Fora a dimensão da biblioteca, e o fato da inteligência da construção que soube aproveitar a luz natural e complementar com luz artificial de forma que os 4 andares de subsolo são iluminadíssimos, o que me deixou sem fôlego, controlando-me para não chorar de tão lindo, foi no segundo em que eu pisei nas salas de estudo da Doe, se é que aquilo podem ser chamados de “salas”:






(Os alunos não tinham acesso aos livros, faziam seus pedidos e aguardavam serem chamados pela "senha" no painel luminoso para pegarem o livro no balcão. Lembrou-me dos fast-foods das praças de alimentação dos shoppings no Brasil...)

Doe foi um “discreto” comerciante de San Francisco (diferentemente de Haas, o magnata que deu nome a várias coisas, inclusive à Business School). Quando ele morreu deixou simplesmente ¼ de toda a sua fortuna para a biblioteca. O prédio foi construído depois de uma competição, em que ganhou o projeto de Joan Galean Howard, que por sinal, construiu todos os outros prédios maravilhosos do campus. E, segundo um dos mais famosos presidentes da história da universidade, Benjamin Wheeler, o objetivo era ter uma “Atenas do Oeste” em Berkeley. Por isso, o Partenão, e por isso o busto de Atenas bem na entrada principal.


(O espírito de uma universidade!)


(Atena recepcionando todos que chegam ao seu "templo")

Mas Doe é apenas uma das 27 bibliotecas do campus, apesar de ser a maior. E eu certamente, com o objetivo bem claramente estipulado desde o início, não iria deixar de ir à procura de outras. Deixo a descrição das outras, inclusive das minhas duas favoritas, para o próximo blog.


Numa rara foto povoada, eu e Ben, este, cidadão Berkeleyano com orgulho, tirada pela Sra. Ben, minha irmã, Bruxa.